cuida de quem cuida de ti

(Autor: João Carlos Dionísio)

Uma das maiores ilusões das relações humanas é acreditar que amar e fazer sentir amado são a mesma coisa.

Na realidade, muitas pessoas amam profundamente e, ainda assim, têm dificuldade em transformar esse amor numa experiência que possa ser verdadeiramente recebida por quem está ao seu lado. Não porque lhes falte sentimento, mas porque aprenderam a viver de uma forma que deixa pouco espaço para reparar no modo como os outros precisam de ser amados.

Vivemos numa sociedade que valoriza o fazer. Desde cedo somos ensinados a cumprir, a produzir, a resolver problemas, a atingir objetivos e a não desperdiçar tempo. Pouco a pouco, muitas pessoas acabam por construir a sua identidade à volta daquilo que fazem. Sentem-se valiosas quando são úteis, quando conseguem resolver situações, quando mantêm tudo sob controlo e quando cumprem aquilo que acreditam ser o seu dever.

Com o passar dos anos, esta forma de funcionar transforma-se numa segunda natureza. A mente habitua-se a viver permanentemente focada na próxima tarefa, no próximo problema, na próxima responsabilidade. Mesmo quando não existe nada urgente para resolver, cria-se uma sensação interna de que há sempre algo que deveria estar a ser feito.

O curioso é que este estado constante de atividade acaba por se transformar numa zona de conforto. Apesar do desgaste que provoca, apesar do cansaço físico e emocional que muitas vezes gera, continua a ser um território conhecido. A pessoa sente-se segura dentro dele. Sabe como funcionar ali. Sabe como sobreviver ali.

Sem dar por isso, começa a acreditar que a vida é isto. Mas existe um preço silencioso.

Quando a mente está constantemente ocupada a gerir a vida, sobra pouco espaço para a habitar. Sobra pouco espaço para observar verdadeiramente quem está ao nosso lado. Sobra pouco espaço para escutar sem pensar na resposta. Sobra pouco espaço para sentir sem imediatamente tentar resolver. E sobra pouco espaço para reparar nas necessidades emocionais daqueles que fazem parte da nossa vida.

Por vezes não é a falta de amor que impede o encontro. É a falta de espaço interior. Quando a mente está constantemente ocupada a gerir a própria vida, torna-se difícil reparar verdadeiramente na vida emocional daqueles que caminham ao nosso lado.

A pessoa continua a amar. Continua a valorizar. Continua a sentir carinho. Continua a considerar importantes aqueles que ama. Não existe ausência de sentimento. Existe algo mais subtil.

Acredita que o amor está implícito. Está presente. Está lá. E porque sente esse amor dentro de si, assume naturalmente que o outro também o sente. Mas aquilo que é evidente dentro de uma pessoa nem sempre é evidente para quem está ao seu lado.

O amor não vive apenas dentro de quem ama. O amor precisa de encontrar formas de chegar ao outro. Precisa de se tornar atenção, disponibilidade, palavra, gesto, interesse e presença consciente.

Existe uma diferença subtil entre sentir amor e expressar amor. Muitas pessoas crescem acreditando que determinadas coisas não precisam de ser ditas. Não precisam de ser demonstradas. Não precisam de ser verbalizadas. Consideram que o sentimento fala por si mesmo.

E talvez fale. Mas apenas para quem o sente.

Quem está do outro lado não vive dentro dos nossos pensamentos. Não consegue adivinhar aquilo que sentimos. Apenas consegue experimentar aquilo que lhe chega através da forma como nos relacionamos.

Talvez por isso tantas relações sofram não por falta de amor, mas por falta de tradução.

Há ainda outra consequência silenciosa desta forma de viver.

Quando a vida se organiza em torno do fazer, torna-se fácil esquecer que algumas das experiências mais importantes da existência não têm qualquer utilidade prática.

Uma conversa não precisa de resolver um problema para ter valor. Um abraço não precisa de cumprir uma função. Uma caminhada não precisa de conduzir a lado nenhum. Uma tarde passada na companhia de alguém pode ser profundamente significativa sem produzir absolutamente nada.

No entanto, para quem vive excessivamente orientado para objetivos, tarefas e responsabilidades, o simples ato de estar pode tornar-se estranho. Surge frequentemente a necessidade de preencher o tempo com alguma atividade, algum plano, alguma tarefa ou algum propósito. Como se a presença, por si só, não fosse suficiente.

Talvez por isso tantas pessoas tenham dificuldade em compreender uma das linguagens mais simples do amor.

A vontade de estar. Não porque exista algo para fazer. Não porque exista um problema para resolver. Não porque exista uma necessidade para satisfazer. Mas simplesmente porque a presença do outro é agradável. Porque existe prazer em partilhar o mesmo espaço, o mesmo silêncio, o mesmo momento.

Existe uma forma de amor que não procura resultados. Não pretende melhorar nada, corrigir nada ou alcançar nada. Limita-se a apreciar a existência do outro.

Talvez uma das expressões mais puras da intimidade seja precisamente essa capacidade de permanecer junto de alguém sem que nenhum dos dois tenha de desempenhar um papel, cumprir uma função ou provar o seu valor.

Porque, no fundo, aquilo que mais alimenta o coração humano não é sentir-se útil. É sentir que a sua presença, por si só, já é suficiente. É aqui que muitas relações se transformam numa oportunidade de crescimento. Não porque uma pessoa esteja certa e a outra errada. Não porque exista um culpado e uma vítima. Mas porque o amor verdadeiro obriga-nos a sair da prisão da nossa própria experiência.

Durante muito tempo podemos viver convencidos de que estamos a dar o melhor de nós. E provavelmente estamos. Mas chega um momento em que a vida nos coloca uma pergunta mais profunda: Aquilo que ofereço é aquilo que o outro realmente precisa? Esta pergunta tem o poder de transformar uma relação. porque obriga-nos a olhar para além de nós próprios. Obriga-nos a reconhecer que cada ser humano recebe amor de forma diferente. Obriga-nos a abandonar a ideia confortável de que basta sentir para que o outro sinta também. Talvez amar seja precisamente isso. Não apenas sentir algo por alguém. Mas interessarmo-nos genuinamente pela forma como essa pessoa experimenta o amor.

Talvez a maturidade emocional comece quando deixamos de perguntar apenas “quanto amo?” e passamos a perguntar “como posso fazer com que este amor chegue ao coração de quem amo?”. E talvez uma das formas mais subtis do ego não seja a arrogância, a vaidade ou a necessidade de ter razão. Talvez seja a tendência para permanecermos tão absorvidos no nosso próprio mundo interior que esquecemos de olhar verdadeiramente para quem caminha ao nosso lado. Porque o amor não cresce apenas através daquilo que sentimos. O amor cresce através daquilo que conseguimos partilhar. E, por vezes, um simples gesto espontâneo, uma palavra não esperada, um abraço, um beijo oferecido sem motivo ou um sincero “amo-te” dito no momento certo podem aproximar duas pessoas mais do que todas as tarefas, responsabilidades e conquistas acumuladas ao longo de uma vida inteira.

Talvez o amor não precise de mais tempo. Talvez precise apenas de mais presença.

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